Ainda o Nuno e o colega Manuel da Costa Martins eram finalistas do curso de Arquitetura na Escola de Belas-Artes do Porto, onde ambos fizeram o 6º ano, quando lhes foi entregue e idealizaram o seu primeiro grande projeto, designado por Edifício para Hotel e Café a construir em Elvas pela Companhia de Seguros O Alentejo (1946). O projeto foi encomendado e materializado pela Sociedade Elvense de Empreendimentos, Lda, e teve inauguração oficial a 16 de janeiro de 1949 (1). O Hotel tinha um total de 82 camas e no r/c funcionava o Café Alentejano. Trata-se de um imponente edifício localizado na Rua da Cadeia nº 17, uma das principais artérias da cidade intramuros de Elvas, que durante décadas marcou a vida do centro histórico da cidade. O edifício tinha então a seguinte distribuição de espaços:

Cave
Sala de refeições
Cozinha
Copa
Despensas
Câmara Frigorífica
Vestiário
Instalações sanitárias
R/C (ex. Café Alentejano)
Hall de entrada do bar e acesso à cantina
Bar com balcão corrido e mesas
Sala de exposições/jogos
Instalações sanitárias
Hall de entrada da residência
Elevador
1º piso
Sala de convívio com pequeno bar de apoio a funcionar após horário do bar sito no r/c
Sala de estar com lareira
Sala de estudo/biblioteca
2 quartos duplos
3 quartos individuais
Instalações sanitárias
2º e 3º pisos
8 quartos duplos
6 quartos individuais
Instalações sanitárias
Instalações de apoio
4º e 5º pisos (entreforro)
7 quartos duplos
5 quartos individuais
Instalações sanitárias
Instalação de apoio
Cobertura
Casa das máquinas (elevador)
Lavandaria
Arrumos
Instalações sanitárias
Terraço Mirante
Depois de 25 anos em funcionamento, o Hotel Alentejo fechou para obras em março de 1974, sendo então já propriedade do Banco Pinto Magalhães. Não mais reabriu. O Café Alentejano, porém, reabriu em junho de 1975, e encerrou portas, definitivamente, em 1991. Assim, o edifício, localizado bem no centro da cidade, ficou devoluto 29 e 12 anos, respetivamente.
Diligencias várias, iniciadas em 1995 pela Escola Superior Agrária de Elvas (ESAE), junto da Direção-Geral do Património (do Estado), da Direção-Geral do Ensino Superior e dos então proprietários (Banco Mello, ex-União de Bancos Portugueses), diligencias estas muito persistentes e mais demoradas do que aquilo que desejávamos, viabilizaram, por fim, em 1999, a aquisição do imóvel pelo Instituto Politécnico de Portalegre (IPP), pelo valor de 398.988 € (cerca de 79.990 contos em moeda de então).

Ainda durante esse ano, 1999, nos termos do Código do Direito de Autor e dos Direitos Conexos, aprovado pelo Decreto-Lei n.º 63/85, de 14 de março, foram contactados pela Escola Superior Agrária de Elvas os autores do projeto inicial para saber do seu interesse e/ou autorização para se proceder à sua adaptação às valências pretendidas: residência de estudantes e cantina. O Nuno prontamente acedeu ao desafio e, por desaparecimento do co-autor, Manuel da Costa Martins, falecido em 1996, o seu filho, Jorge da Costa Martins, gentilmente, cedeu todo o conteúdo patrimonial do direito de autor sobre a obra. Deste modo, o projeto foi entregue ao Atelier da Rua da Alegria, tendo o projeto de adaptação sido elaborado por NTP em co-autoria com Carlos Manuel Oliveira Reis. Interessante notar que decorridos mais de 50 anos, o Nuno voltou a mergulhar no seu primeiro projeto, reinventando-o para novas e modernas utilizações.
Em resumo o projeto para residência de estudantes e cantina tinha a seguinte distribuição de espaços:
LAVANDARIA (piso 0 – cores branca e cinza)
Sala equipada para proceder à receção, lavagem, secagem e passagem de roupa da residência e dos estudantes, monta cargas para roupa lavada e courette para roupa suja.
CANTINA (pisos 0 e 1 – cor azul)
Constituída por cozinha, despensas, frio, balneários (HM), monta cargas para loiça suja e monta cargas para alimentos confecionados, e refeitório, em self-service, com 86 lugares sentados.
RESIDÊNCIA (pisos 2 a 6 – cores amarelo, cinza-claro, azul-claro, vermelho e verde, respetivamente)
Espaços comuns – sala de estudo, sala de convívio, cozinhetas de apoio e 2 w.c. comuns em cada piso, varanda de lazer e convívio virada a Sul.
O número de quartos por tipologia e o respetivo número de camas era o seguinte:

O edifício contava, ainda, no piso 1, com um amplo apartamento T0 destinado a professores visitantes e entidades convidadas.

No piso 1 (ao nível do r/c da Rua da Cadeia), onde hoje se situa a cantina e antes funcionava o Café Alentejano, foram preservadas as pinturas murais, as quais têm motivos etnográficos muito interessantes e emblemáticos da vida rural alentejana de princípios do século vinte.
Lembro-me de uma característica do projeto que na altura era pioneira e arrojada: os pisos comunicavam por escadas de livre acesso, isto é, não existia qualquer limitação física à circulação entre as zonas de quartos e espaços comuns destinados a rapazes e raparigas, como até então tradicionalmente existia, embora cada piso em conceito se destinasse a um género e tivesse uma identidade cromática própria.
Em 2000 foi lançado o concurso público e adjudicada a realização da empreitada ao consórcio constituído pela Dolmen – Engenharia Civil Lda. e IEC – Engenharia e Construção Lda. A obra decorreu de 2001 a 2003 e teve um custo total de cerca de 1.678.000 € (cerca de 336.408 contos em moeda de então).

Finalmente, em 25 de novembro de 2003, foi a inauguração oficial da Residência de Estudantes e Cantina da Escola Superior Agrária de Elvas a qual contou com a presença do Nuno e de diversas individualidades oficiais, entre outras: Presidente do IPP, Presidentes dos Conselho Diretivos das Escola Superiores integradas, Administrador dos Serviços de Ação Social Escolar do IPP, Governador Civil do Distrito de Portalegre e Presidente da Câmara Municipal de Elvas.
Podemos hoje dizer que a adaptação do antigo Hotel Alentejo a residência de estudantes e cantina, projeto de modernização, datado, mas sem perda de identidade, foi um importante marco para a Escola, para o Instituto, para a cidade de Elvas e para a região do Alentejo. Isso todos ficamos a dever (também) ao Nuno.
Gonçalo Júdice Pargana Antunes Barradas (ao tempo Presidente do Conselho Diretivo da ESAE)
Dezembro de 2025
(1) No catálogo de obras publicado em Arquitectura e Cidadania: Atelier Nuno Teotónio Pereira, Lisboa, Quimera Editores, 2004, está indicado, por lapso, que este projeto não foi construído (p. 259).
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