Atividade política Igreja católica

Maria Hélia Viegas

Há histórias que nunca pensamos contar, mas esta foi surpreendente.

Depois de nascermos, eu e meu irmão, fomos viver para Santarém até irmos para a faculdade.

Pertencíamos a uma família bem tradicional, democrata, antifascista, que nada tinha a ver com a igreja católica.

É bom explicar que o meu irmão António veio a ser o genial MÁRIO VIEGAS.

Tínhamos uma diferença de um ano e pouco e, desde sempre, fizemos teatro. Eu habituei-me a estar invisível perto dele, mas dávamo-nos como almas gémeas.

Quando me encontrei na Igreja, tornei-me uma fantástica católica, bem gozada dentro da minha família… Para o meu irmão, eu desafiava aquilo em que se acreditava!

Firme lá segui a minha crença de mártir católica e matriculei-me em Farmácia no Porto. Entenda-se que eu era a 4º geração de farmacêuticos e a licenciatura existia apenas no Porto (nessa época, em Coimbra e em Lisboa só havia escolas de Farmácia).

Claro que segui direitinha para a JUC (Juventude Universitária Católica) e passei a ser uma ativista do grupo, mas, por feitio, sempre bem invisível e discreta.

Por volta dos anos 70, a escola de farmácia de Lisboa passa a faculdade e já não fazia sentido estar tão longe, portanto, acabei a licenciatura em Lisboa.

Tinha perdido muito aquela parceria com os amigos do Sul.

Foi a Isabel Pinto Correia – sempre amiga da escola – que me integrou na JUC de Lisboa e me enturmou com a malta do Técnico e aí estou eu com o Guterres, o Serafim Graña, mais tarde, com a Teresa Sousa, o Luís Moita, o Januário, etc.

O meu irmão, que tinha estado no Porto, também já estava em Lisboa, e era conhecido pelas suas atividades antifascistas, convívios e fugas à polícia. Também isso passou a fazer parte da minha vida.

Nessa época tínhamos encontros com grupos, dos quais faziam parte o Padre Felicidade, Luís Moita, Nuno Teotónio Pereira e outros, que faziam frente à brutalidade do fascismo, da PIDE, dando à Igreja a dimensão que todos nós entendíamos ser a de Cristo e do Evangelho.

O meu olhar sobre o arquiteto Nuno Teotónio Pereira deixou de ser distraído e fiquei muito mais atenta, quando assisti ao seu desgosto imenso pela morte da sua companheira, o desgosto dos seus filhos sem a mãe, e vi os dois caixões da mulher e do seu bebé sobrepostos numa igreja em Lisboa.

Foi sempre um companheiro nas lutas contra tanta ignorância e estupidez. Penso que lhe fui sempre invisível, mas ele nunca o foi para mim…

Depois da Capela do Rato, ainda me aproximei mais do grupo, reconhecendo uma igreja possível e bem diferente da que servia os fascistas do estado novo.

Acabei o curso e casei com uma pessoa desses grupos de luta mas muito mais tarde percebi a fraude em que tinha caído…mas passando á frente…

Nos finais de 1973, praticamente todos os amigos com quem me dava e que ajudava na clandestinidade, estavam presos. Foi uma razia (!!!!) e um medo enorme para todos nós. Tudo se agravou despois da morte do presidente Allende e do horror que se passava no Chile…

Até que um dia de madrugada, chega a libertação. Ainda muito a medo, não acreditávamos que fosse possível…

25 DE ABRIL!

(Um amigo de Santarém e muitos outros…)

Uma explosão de alegria e esperança com alma cheia.

E, claro, todos nos juntámos. Era fundamental tirar os amigos de Caxias e de outras prisões.

“Libertação dos presos políticos, JÁ!”

Era a palavra de ordem.

Nesses dias, andávamos à boleia com qualquer pessoa e íamos para todo o lado sem medo algum. Lá fui eu para Caxias.

Uma esperança enorme porque não queriam libertar os presos. Nunca percebi o que deu nos capitães de Abril… coisas de revolução… mas não arredávamos pé daquele lugar enquanto não os libertassem.

Quando se abriram as portas foi uma alegria tão grande!… Ainda hoje não consigo descrever.

A liberdade estava a passar por ali.

Foi então que…

ACONTECEU O INSTANTE. O FLASH.

Quando vi o Nuno, dei-lhe o abraço do tamanho da felicidade e do mundo.

E ele a mim.

Alguém fez a foto que foi primeira página do Diário de Notícias no dia seguinte.

Até hoje julgo que este homem extraordinário que sempre ajudou este país as pessoas de uma honestidade fantástica e cultura brilhante, nunca soube quem era aquela pessoa do povo que o abraçou com a maior alegria do universo.

Um abraço sem fim.

Maria Hélia Viegas
Abril de 2026

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