
No âmbito da iniciativa da Ordem dos Arquitetos “Glossário de Arquitetura Portuguesa de Autor” coordenada pela arquiteta Sofia Aleixo, e a convite da arquiteta e professora Alexandra Paio, foi desenvolvida a publicação “Mensagens para Cidade/Futuro: Profecias de Nuno Teotónio Pereira” (2026) em conjunto com uma turma de alunos de projecto do 4ºano do Mestrado Integrado em Arquitetura do ISCTE-IUL
Este exercício emerge também de uma posição concreta: a nossa, enquanto arquitetos e investigadores que trabalham sobre o ensino da arquitetura e as suas transformações. No centro desta investigação está uma inquietação comum: como ensinar arquitetura hoje, perante um contexto de crise e de mudança acelerada, e que ferramentas podem reativar o pensamento crítico e a imaginação projetual dos estudantes. O encontro com a obra de Nuno Teotónio Pereira revelou-se, nesse sentido, não apenas pertinente, mas necessário. Este projeto nasce, assim, pela criação de um dispositivo pedagógico que, mais do que revisitar o passado, tratou de o colocar em ação.

O convite para integrar esta iniciativa permitiu revisitar uma obra que resiste ao tempo precisamente porque nunca deixou de interpelar o futuro. Nesse sentido, sintetizar esse legado num glossário de 23 palavras é, simultaneamente, uma homenagem e um reconhecimento da impossibilidade de conter a relevância e densidade do seu pensamento escrito e projetado. Um pensamento de um arquiteto que marca, de forma indelével, a cultura arquitetónica contemporânea.
É nesse espírito que se desenhou o glossário, não como inventário, mas como gesto de diálogo com a obra do arquiteto. O projeto procurou questões lançadas na sua palavra escrita, aplicando-as ao presente e projetando-as no futuro da cidade, da arquitetura e da profissão. Este exercício de continuidade quis honrar o autor explorando o valor pedagógico do estudo do passado para compreender o presente e projetar o futuro. Para isso, optou-se por um processo experimental e lúdico, desenvolvido a partir das suas próprias palavras, mas devolvendo-as, agora, em forma de mensagens proféticas.
As publicações Arquitetura e Cidadania: o atelier de Nuno Teotónio Pereira (2004) e Escritos 1947-1996, selecção: Nuno Teotónio Pereira (1996) constituíram as referências essenciais, orientando a leitura da voz do arquiteto bem como dos autores que para elas contribuíram. Nuno Teotónio Pereira cultivou o exercício da arquitetura como prática de experimentação, crítica e de transformação. O seu pensamento teve como foco a cidade como lugar de exercício da cidadania, bem como a ética da profissão, o seu contributo social e a sua responsabilidade de transformação cívica (Tostões, 2004). Estas convicções revelam uma atualidade e pensamento crítico que desafiam qualquer distância histórica, ou, usando as palavras da arquiteta Helena Roseta, “um percurso de combate”.

Foi precisamente este combate que o exercício procurou revisitar, reconhecendo a pertinência do pensamento crítico na prática e no ensino da arquitetura particularmente relevante face às condições contemporâneas da profissão e da cidade. Nesse sentido, a partir da empatia com a palavra e obra de Nuno Teotónio Pereira, foi possível reconhecer, estimular e aprofundar inquietações semelhantes partilhadas pelos alunos, demonstrando um potencial que nem sempre é explorado por modelos pedagógicos vigentes.
O processo iniciou-se com a atribuição aleatória de letras do abecedário a cinco grupos de trabalho. A partir da leitura dos textos do arquiteto, cada grupo procurou palavras integradas em citações do autor que evidenciassem o seu significado à luz da sua visão crítica e humanista. A seleção desses conceitos alimentou uma discussão coletiva que se prolongou no desafio de propor uma nova palavra, um prolongamento semântico e especulativo da sua definição original. A partir desse processo crítico formularam-se 23 mensagens para o futuro da cidade, ou para o arquiteto que, no futuro, será responsável por desenhá-la.
O diálogo entre passado, presente e futuro materializou-se ainda num exercício gráfico. Os alunos foram convidados a selecionar fotografias representativas da obra de Nuno Teotónio Pereira e ilustraram as suas mensagens sobre as mesmas, através de desenho digital. Este exercício criou um novo diálogo entre a obra, o tempo e a linguagem.
A leitura da obra de Nuno Teotónio Pereira sob esta perspetiva especulativa revela, na sua palavra escrita, uma constante inquietação com o futuro da cidade e da arquitetura, uma inquietação tão atual que não é difícil imaginá-la num tom quase profético. Foi a partir dessa narrativa que se inspirou o gesto de produzir novas profecias: um diálogo entre estudantes de arquitetura e a palavra do arquiteto, materializando-se numa publicação que se afirma como cápsula do tempo desse encontro. Hoje, esse gesto adquire um significado renovado.
As mensagens deste glossário não são apenas uma homenagem. São continuidade, reflexões que nascem de inquietações e que se projetam na possibilidade de gerar novos futuros. Estas novas profecias, elaboradas por cidadãos, também eles futuros arquitetos, provam que as palavras de Nuno Teotónio Pereira ainda produzem pensamento, ainda incomodam, ainda exigem arquitetura. Hoje, o futuro ainda é seu. Continuamos, com ele.

Inês Nascimento e Henrique Andrade
Lisboa, Abril 2026
Referências
Escritos: 1947-1996: selecção. Porto: FAUP Publicações, 1996
Arquitetura e Cidadania: Atelier Nuno Teotónio Pereira. Quimera, 2004
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