Património Urbanismo

CASTELO DE VIDE | Projeto de reabilitação do castelo com Nuno Teotónio Pereira

A relação do Nuno TP com a salvaguarda e desenvolvimento urbano da Vila de Castelo de Vide é de longa data.

Para além de outros empenhos, entre 1979 – 1989 o Nuno assumiu a responsabilidade do Plano Geral de Urbanização desta vila, com um cuidado e abrangência tal que se tornou não só um exemplo mas sobretudo um instrumento de planeamento fundamental ao desenvolvimento urbano deste singular conjunto patrimonial e com influência em todos os planos sequentes, até hoje. Como parte do processo, congregou colegas de arquitetura e outras áreas afins, como paisagismo e arqueologia, em reuniões diversas no local, potenciando também a participação activa da população, na atmosfera do entusiasmo democrático do pós 25 de Abril de 1974.

NTP em colóquio sobre urbanismo em Castelo de Vide (1980). Foto: Irene Buarque

Pelo ano de 2001, habitando eu em Castelo de Vide, também na sequência do meu trabalho como coordenador do Gabinete Técnico Local para a realização do Plano de Pormenor da Zona mais antiga da vila – para o qual o Nuno se disponibilizou, e efectivamente acompanhou e estimulou generosamente algumas fases importantes deste trabalho entre 1997 e 2000 – convidou-me a desenvolver com ele o projecto de reabilitação do castelo de Castelo de Vide, que lhe tinha sido encomendado pelo então Instituto Português do Património Arquitectónico e Arqueológico (IPPAR).

Não me parecendo relevante no intuito deste meu testemunho uma explicação detalhada sobre as soluções concretas desse projecto, cabe no entanto clarificar que o objecto / espaço em causa cingiu-se ao núcleo forte do castelo com quatro edificações fortificadas em torno da Praça de Armas (incluindo pois a torre de menagem e o antigo paiol) e os panos da muralha medieval. Desenvolvido em várias fases, pretendia-se um programa funcional ambicioso com zonas de recepção, loja, cafetaria, esplanada, eventos, núcleos museológicos e expositivos, para além da circulação pública no adarve da muralha.

A equipa pluridisciplinar selecionada e coordenada pelo Nuno, onde cada especialidade tinha o seu próprio escritório, revelou-se de tão eficiente abertura ao diálogo como de competência técnica. Dado o facto do Nuno ter o seu escritório ocupado com outros trabalhos, nomeadamente o Plano de Mobilidade Pedonal da Covilhã, mas também por lhe parecer estratégico, decidiu-se que o projecto e respectivos desenhos da arquitectura, com a sua liderança, seriam desenvolvidos no escritório que eu partilhava com o meu colega Alberto Cruz, em Castelo de Vide. Facto que se revelou particularmente útil pela proximidade física às edificações em causa, em particular na fase do exigente acompanhamento da obra, que acabou por se efectuar apenas no grande e singular paiol militar, como polo expositivo em dois pisos (2003).

O resultado final foi de reconhecida qualidade, fruto também de uma espécie de obra laboratorial e consequentes reajustes, com uma forte implicação do IPPAR (dono da obra), do empreiteiro e da equipa de fiscalização.

Durante todo o processo fomos galvanizados pela humilde e serena disponibilidade de escuta e abertura do Nuno, com uma capacidade de síntese do essencial, também intuitiva, num militante serviço do desenho para a dignidade da vida em geral e dos humanos em particular, onde a inovação ou particularidade dum projecto não se separa da naturalidade orgânica e complexa dos diversos contextos (físicos e espirituais) de diferentes escalas em que se insere, e onde um sensível exercício de contenção, também económico, é significativamente valorizado.

Mais do que uma imagem de marca autoral, encontro assim no trabalho do Nuno Teotónio Pereira uma atitude ou serviço de marca. De liderança humanista, congregando, conciliando e catalizando democraticamente equipas interdisciplinares no desenvolvimento de edifícios / estruturas para a complexidade abonatória da Vida, onde a vitalidade do presente se reforça com raízes do passado e do futuro de cada lugar, resultando nas expressões matéricas íntegras e próprias que se reconhecem em toda a “sua” obra. No fundo, valores que se poderão considerar como essenciais numa verdadeira Arquitectura e que hoje, num tempo sem tempo e no imediatismo da imagem, tendem a rarear…

NTP a trabalhar, em casa, com o arquiteto Nuno Malato (2003). Foto: Irene Buarque

Como nota final, relato aqui ainda uma história associada a este trabalho, expressiva do Homem flexível mas com convicções e determinado, que era o Nuno TP.

Nas vésperas das eleições autárquicas de 2005, o presidente da Câmara de Castelo de Vide, que se recandidatava, convidou o Nuno TP para fazer uma apresentação e explicação aberta ao público, sobre a intervenção no castelo (feita pelo IPPAR).

O Nuno telefonou-me e disse-me que ele não poderia estar presente na data prevista mas que então naturalmente tinha pensado em mim para o fazer.

Eu, que vivia lá e compreendia o aproveitamento propagandista do então presidente, expliquei-lhe a minha perspectiva e disse-lhe que me parecia não ser a altura para essa apresentação…

Pela primeira e única vez o Nuno levantou-me a voz e disse-me: “Vais porque nós nunca podemos abdicar do falar sobre a arquitectura!”. Ao qual lhe respondi que iria então fazê-lo por ele.

Na data prevista dediquei-me seriamente à apresentação solicitada e compreendi a oportunidade que afinal nos tinha sido dada, apesar do contexto, para explicarmos genericamente a complexidade de questões inerentes às soluções da intervenção, de aparente simplicidade, e o quanto visivelmente isso foi apreendido e valorizado pelos presentes no próprio espaço, incluindo portanto o tal presidente.

Grato pelo sucedido, liguei ao Nuno a contar-lhe e a agradecer-lhe, apreendendo eu também essa sua convicção.

Nuno Fragoso Malato
8 de Janeiro de 2026

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