Da correspondência entre o Nuno e a Natália que chegou até nós faz parte um conjunto de dez cartas e dois postais que descrevem a viagem que NTP fez, durante um mês, por estes três países, com uma paragem, no regresso a casa, por Bogotá, vindo do Panamá, e passando depois por Caracas e Porto Rico. O pretexto foi a participação no VII Congresso da União Internacional dos Arquitectos, em 1963, realizado em Cuba e no México. Uma oportunidade rara na época, e que deixou rasto.

25 Set. 1963 | Laredo, EUA
São onze e meia do dia 25 (tive que consultar o calendário, pois perdi a conta ao tempo). Estes dois dias e tal metidos num autocarro, com paragens de meia hora, embruteceram-me um tanto. Já tive que atrasar o relógio por duas vezes, desde a saída de N. York na 2ª feira à tarde.
Agora estou em Laredo, na fronteira, numa terra onde todos são mexicanos de raça e fala mas de nacionalidade americana. Mas apesar disso, ainda há as boas coisas da América, como os hamburger e os copos de leite, com que me tenho alimentado nestes dias, afora certas experiências gastronómicas feitas timidamente noutros sentidos e nem sempre com êxito.
Pouco ou nada tenho falado, pois o inglês que aqui usam é de desanimar. Nem eu os entendo, nem eles a mim – e a questão não é de vocabulário, mas de accent.
Esta travessia da América desiludiu-me, em parte: nunca pensei que fosse tudo tão igual. É curioso como um povo colonizador, vindo da costa oriental, varreu assim todo um continente: fora os centros das grandes cidades, que são o que a gente já conhece com seus arranha-céus, os arredores e as vilas, as pequenas cidades, são exactamente aquilo que viste nos Açores (Lajes e Santa Maria): o mesmo aspecto provisório das casas de madeira ou pré-fabricadas, com telhados de zinco ou de cartão, as mesmas ruas alinhadas e largas com passeios relvados.
Mas vi coisas realmente novas: a marca do automóvel por toda a parte; nos cemitérios de ferro-velho de grandes extensões, mesmo em zonas centrais, as feiras de carros em 2ª mão, os parques de estacionamento colossais, as zonas comerciais instaladas fora das cidades (ao entrar em qualquer cidade, andam-se alguns quilómetros entre lojas género supermercados que vendem de tudo); é aqui que o americano vai fazer as suas compras, sem o trabalho de procurar estacionamento para o carro, sem as demoras do trânsito nas zonas centrais, e muitas vezes sem sair do carro. Toda a vida está feita para o carro, e os autocarros são raros nas cidades, circulando só com velhos ou com crianças. Quanto à vida, parece ser realmente aquela que conhecemos dos filmes, pacata e organizada.

Quanto às 24 horas que passei em Nova York, não foram suficientes para dominar a cidade, pois estive sempre desorientado e tive medo, por exemplo, de ao meter-me no metro ir parar demasiado longe; por isso andei a pé, numa área restrita, e só no 2º dia, quando subi ao alto de um arranha-céus, é que me pude situar; mas logo voltando abaixo, me perdi naquela infernal quadrícula. Nas ruas, muita elegância e muita miséria, muitos edifícios moderníssimos ao lado de prédios sórdidos e vielas escuras e terrenos abandonados. Nas poucas compras que fiz ou tentei fazer não fui feliz: camisas como as europeias, de terilene, não as conhecem (ou quase); a gabardine, que acabei por comprar com medo da chuva repentina, não tem piada nenhuma, nem sequer saco, pois agora já não fazem os modelos que aí conhecemos; alguns discos que comprei (1), e que achei baratos, mesmo assim vim a verificar depois que me tinham intrujado no preço (de facto são ao preço da chuva).
Quanto ao físico, tenho aguentado bem; há duas noites que durmo de cadeira e não me sinto moído; as curtas paragens aproveito-as para toilette, refeições ligeiras e uma volta rápida na cidade, geralmente à procura de uma igreja católica.
27 Set. 1963 | Cidade do México
Como vês, a carta escrita em Laredo, há justamente dois dias, ainda aqui está. Fiz mal em não a meter logo no correio, quando aqui cheguei ontem à noite. Agora são 11 horas da noite e tive hoje um dia em cheio, que passarei a descrever um tanto desordenadamente. Mas antes vou pegar no fio e continuar a meada que deixei na fronteira. A última parte da viagem, dentro do México, foi a mais penosa (talvez por ser a última – pois a estrada é magnífica, o que não esperava – e o autocarro tão bom como os americanos). Mas foram perto de 1.000 km, dos quais 800 de dia, desde Monterrey até aqui, sempre a andar. O contraste da paisagem, gritante: majestosas montanhas e deserto a valer, com cactos gigantescos durante horas e horas sem sinal de vida; a certa altura, porém, começaram a aparecer uns magros milhos e pobres casitas de terra batida e mais adiante vales férteis com campos tão bem cultivados como os do Texas, cidades importantes e muitas fábricas. A entrada na capital, à noite, impressionou-me pelo que pude aperceber-me da sua grandiosidade (5 milhões de habitantes). Fui para um hotel médio, onde tomei um enorme banho e lavei a minha roupa com o maior sucesso.
Hoje, logo de manhã, a Missa, silenciosa e rápida, tal como a de N. York (aqui começam as missas dialogadas, em paróquias experimentais). A seguir, fui saber do avião para Cuba, que devia partir ao meio-dia; tive a passagem confirmada, mas o avião só partiria à noite; pelas 7 e meia telefonei e disseram-me que o avião só partiria afinal amanhã à 1 hora. Aliás, por aqui, todos troçam das coisas de Cuba e duvidam que o Congresso (2) tenha realmente muita participação de estrangeiros. Fiquei assim com uma tarde inteira (e agora mais uma manhã) para estar no México. E mesmo que o avião parta à hora marcada, já chegaremos tarde à abertura do Congresso.
Fui então às Informaciones Católicas (3) e (1ª surpresa agradável) – está instalada a delegação numa espécie de Casa Sampedro (4), com livraria e artes litúrgicas. Falei longamente com o director e quando lhe disse que tinha a direcção das Irmãzinhas (5) e que as ia procurar (2ª surpresa), diz-me ele: uma delas está cá em cima no 1º andar, pois ajuda-nos na tradução da revista. Foi um daqueles momentos de que nós falamos nas reuniões de grupo (6) – vi como na Igreja o Senhor faz juntar as coisas e as pessoas para a obra de renovação que quer empreender. Aqui a Igreja está saindo de um complexo de perseguição e tudo parece muito mais atrasado do que aí.
Durante a tarde fui aos Arquitectos, mas não havia ainda cartas, telefonarei amanhã de manhã a saber. Recepção cheia de simpatia. Depois, fui às compras: mais uma camisa barata “wash and wear” (lavar e vestir) e já algumas lembranças e ainda um belo casaco de malha para o atelier no inverno. As compras aqui são de tarar (arte popular riquíssima e gosto moderno). É preciso que não me deixe tentar demasiado.
À tardinha fui às Hermanitas (5). Foi um convívio cheio de alegria e jantei com elas e rezámos juntos. A oração da refeição foi a do P. João! Depois, falámos de muita coisa da Igreja: Cursilhos (7) (já tenho reuniões aprazadas para depois de Cuba), Fraternidades [das Irmãzinhas de Jesus], equipes de casais, etc., etc., sem esquecer os problemas político-sociais. Uma das Hermanitas esteve em Cuba, deu-me algumas moradas e outras indicações, o que me facilitará os contactos ali. Estão todos muito interessados na minha viagem, pois aqui nada se sabe ao certo sobre a situação da Igreja e paradeiros de certas pessoas. O gerente das ICI [Informations Catholiques Internacionales] (Gaspar Elizondo) também me deu indicações. Dou graças a Deus de me permitir assim um modesto papel para saber e fazer chegar notícias. Insisti muito nas conversas no que nós temos recebido dos diferentes movimentos que há na Igreja (e realmente, pensando bem, tem sido extraordinário – muito nos será pedido, Natália): Equipas NS [Nossa Senhora], Cursos de C. [Cristandade], MRAR [Movimento de Renovação da Arte Religiosa], Fraternidades, etc. Gostaram muito de ouvir, pois aqui tudo isso está no princípio e sem contactos uns com os outros. O Movimento Familiar, bastante importante, com o mesmo vício de aí, os cursilhos por outro lado, as Hermanitas sem contactos com uns ou outros, etc. Peço a Deus que possa falar numa ultreya (8) e tocarei neste ponto; reza especialmente por isso. A gente das ICI queixa-se por outro lado da falta de assinaturas e interesse pela revista; e os índios, que são todos os camponeses, praticamente abandonados a uma religião supersticiosa e fetichista.
Entretanto, com a leitura de 2 jornais e 2 revistas (uma católica, outra comunista) e algumas conversas, comecei a conhecer a situação política e social; depois de uma revolução violenta (que nós conhecemos dos filmes e das pinturas dos grandes pintores revolucionários) deu-se um aburguesamento que os marxistas classificam de traição e os moderados de evolução progressiva. É uma situação curiosa, mas que a nós nada nos pode dizer, pois não tivemos a tal revolução. Mas segundo dois motoristas de táxis, unânimes na sua opinião, o povo não pensa em revoluções, e sente-se a sair pouco a pouco da sua miséria. E talvez seja este o país da América Latina em que o castrismo tem menos atracção. Enfim, muito haveria a contar, mas quero ainda escrever alguns postais e curtas cartas ao Pai (9) e ao P. Jorge (10), visto que de Cuba não me valerá a pena escrever pois o correio demora muito. (…)
28 Set. 1963 | Cidade do México
(…) O avião cubano tão esperado quase hora-a-hora durante dois dias, acaba de aterrar aqui mesmo em frente e devemos partir daqui por uma ou duas horas. São 4 horas de viagem, e assim, vai ser uma noite pouco dormida, mas estou agora perfeitamente repousado, e tenho gozado estes dois dias extra com plena liberdade de programas, sinto-me perfeitamente em forma para entrar em cheio no Congresso. Quanto a este, a inauguração foi esta tarde e a esta hora está a decorrer a recepção dada pelo Presidente da República (não o Fidel, que é Chefe do Governo); mas talvez ele apareça e assim eu tenha perdido a oportunidade de ver tão discutida personagem. (O avião aproxima-se e como agora anunciaram a sua chegada, muitas pessoas olham com curiosidade). Na verdade, há aqui um ambiente de enorme curiosidade acerca do que se passa realmente em Cuba, de quantos soldados russos lá estão (e se também há chineses), etc., etc. O que se sabe aqui de viva voz é trazido pelos refugiados que chegam dizendo o pior possível, como é natural. E o que é um facto é que, mesmo nos operários, segundo testemunhos que tenho recolhido, Castro não tem nenhumas simpatias, e por dois motivos: pelas dificuldades da vida ali (racionamentos, etc.) e por se ter ligado a um país estrangeiro. Por tudo isto, todas as pessoas a quem digo onde vou ficam cheias de admiração (e às vezes certa inveja), por me ser dado ver as coisas no local. Queira Deus que eu possa assim ter alguns contactos fora do ambiente do Congresso. E as indicações que levo devem dar-me possibilidade para isso, a não ser que os cubanos tenham montado um regime de vigilância policial.
Assim, além da Amélia Teixeira (11), irei falar com os pais de uma Irmãzinha de Jesus que está a estudar em Roma e que tem notícias muito escassas da família; também para estes levarei algumas encomendas. Depois, tenho os padres canadianos, que parece gozarem de uma certa liberdade de acção, indicados pelo gerente das ICI; estes, por sua vez, me darão a direcção de um médico, antigo dirigente da Juventude Católica. E ainda mais: tenho também a indicação de 2 bispos que são assinantes das ICI, e que são dos poucos que estão em Cuba. Amanhã, logo de manhã, irei à missa (dia grande para entrar em Cuba no meio da Igreja) e, aproveitando-me de um programa ligeiro do Congresso, procurarei logo alguns contactos; a questão está em sair do hotel sem darem por mim.
Hoje estive a ver a lista dos membros da Comissão do habitat inscritos para o México (é possível que venham depois mais alguns), mas por enquanto são poucos: Le Même (12), os dois gregos e o húngaro, além do Vougel, que é responsável. Estou cada vez mais convencido de que as reuniões da Comissão vão ser absolutamente nulas, e que o Congresso polarizará todas as atenções. Dos 2 portugueses do Ministério não tenho notícias – coitados.
Aqui também têm aparecido nos jornais artigos como o do Diário da Manhã, e ainda muito mais fantasiosos, dizendo inclusivamente que a UIA [União Internacional de Arquitetos] é um organismo comunista internacional, como a União Mundial das Mulheres, o Congresso para a Paz, etc.! Mas o que se tira de tudo isso é que a realização do Congresso é uma coisa importante para o regime de Castro. Este avião que parte agora vai cheio de arquitectos de muitos países e parece que outros dois ainda sairão nestes dias (já com um enorme atraso, claro).
Esta tarde fui ver 2 filmes checoslovacos bastante bons e dei umas voltas pela cidade sem programa, nem compras, nem nada; além disso, escrevi já muitos postais (…).

30 Set. 1963 | Havana (postal)
Aqui cheguei, depois de uma bela viagem. Há realmente muito que ver aqui. Com mais vagar, mandarei notícias, pois o horário do Congresso é muito carregado.
3 Out. 1963 | Havana (postal)
Hoje, a clausura do Congresso; nos 3 dias seguintes, passeios, mas só a 9 poderei ir para o México, por falta de aviões. Só depois haverá notícias mais rápidas, pois não sei quando este [postal] chegará.
7 Out. 1963 | Havana
Estou em Cuba há 1 semana (cheguei a 29) e só consegui marcar lugar no avião para 9, depois de amanhã. Mas sucede que, além da irregularidade das linhas, está um tufão a passar por aí (a sua marcha é seguida desde há 8 dias e já atingiu a parte oriental da ilha) e por isso as ligações aéreas podem ficar suspensas alguns dias. (…)
O Congresso muito bem organizado, teve um programa extraordinariamente cheio de actividades complementares (exposições, sessões artísticas, visitas, etc.) e assim o tempo não chegou. No fim, fomos passar sábado e manhã de domingo a uma praia (espécie de grande FNAT [Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho]), onde, apesar do tempo já agitado, ainda tomei 2 belíssimos banhos tropicais. Agora a temperatura tem estado melhor, com chuva e vento, mas nos 1ºs dias o calor e a humidade eram tremendos. Felizmente, aqui ainda tem tudo ar condicionado, do tempo dos imperialistas, como dizem, e o meu quarto no hotel Vedado (categoria turística) também tem; é onde venho descansar às vezes no meio do dia. Devo dizer que aqui não me convidaram e por isso a estadia é à minha custa, mas tenho feito as possíveis economias; no fim de contas, poucos dias irei passar no México, onde tenho convite, pois devo chegar já no fim do Encontro (é possível que este atraso aqui me leve a prolongar a viagem, mas só quando chegar ao México decidirei isso).

Entretanto, e prejudicando contactos profissionais que tenho tido pouco, aproveito todo o tempo disponível para esclarecer-me sobre a situação aqui, e isso tenho feito creio que com profundidade. Já contactei com 3 famílias de meios diferentes, em conversas prolongadas e tenho estado também com o Encarregado de Negócios de Portugal, que, como lhe compete, conhece muito isto e tem uma visão objectiva da situação. Os testemunhos é claro que são divergentes, mas já me é possível fazer um juízo que procurarei completar e aprofundar no tempo que me restar aqui. O que não há dúvida é que isto é um mundo diferente e, com a falta de notícias, quase me sinto num outro planeta (a propósito, digo-te que esteve aqui e assistiu ao encerramento do Congresso a Tereshkova (13), cosmonauta russa); nesse encerramento também ouvimos um discurso do Fidel, que é realmente um orador fabuloso.
No Congresso, é claro que se sentiu fortemente a influência do meio, e como o tema eram os países subdesenvolvidos , eles carregaram a fundo, pois talvez 4/5 dos congressistas eram do Leste e da América Latina pró-fidelistas e muito mais combativos do que os pacatos europeus ocidentais. Assim, as conclusões, não tratam propriamente da Arquitectura ou do Urbanismo, mas sim daquilo que está na base. As acesas batalhas que os ocidentais travaram na redacção das conclusões foram apenas para evitar certo vocabulário demasiado marcado e expressivo. O Congresso foi para aqui um acontecimento importantíssimo, e por isto as actividades desenvolvidas e a adesão popular enormes (edifícios feitos de propósito, obras nas ruas, intérpretes às centenas, etc.).
Dos portugueses , só veio aqui o casal Ramos-Pai (14) e um arquitecto do Porto; os outros dois foram só ao México. (…)
11 Out. 1963 | Cidade do México
Eis-me voando finalmente de Havana para o México; é 1 hora da tarde, e como da outra vez, à partida do México, o avião saiu 2 dias mais tarde e esta manhã fizeram-nos levantar às 5 e meia para o avião largar só às 11 horas. O tempo está óptimo e o tufão já se foi. Estou ansioso por chegar ao hotel e ler as notícias acumuladas, que espero sejam muitas; tem-me custado todo este tempo sem saber nada daí. Escrevi postais e cartas de Havana , mas dizem que a correspondência demora 10 ou 15 dias; talvez assim esta carta chegue ainda antes.
Volto satisfeito de Cuba, pois parece-me que consegui ver a situação com uma certa clareza, embora sem ter conseguido, apesar de ter estado ali uns 12 dias, falar com toda a gente com quem gostaria de estar; assim mesmo, considero o inquérito bastante completo. Levo muita documentação elucidativa, que não sei se chegará toda aí, até porque me dizem que à chegada ao México nos irão fazer uma busca bastante rigorosa; o que escapar dessa revista mandarei para Lisboa pelo correio, em diversos pacotes, além de alguma coisa que levarei comigo. Espero que assim, algo deverá chegar, mas suponho que remetidos do México os pacotes não levantem suspeitas.
No aspecto económico a viagem não vai muito bem, pois só agora, no México e portanto durante poucos dias, irei beneficiar de convite; em Cuba, apesar dos esforços que fiz, gastei bastante dinheiro, pois o câmbio que fizeram foi espantosamente caro e algum dinheiro que me proporcionaram do mercado negro acabou por não me dar vantagens, pois os nossos amigos fiscalizaram apertadamente todas as nossas despesas, exigindo que provássemos que tínhamos feito o câmbio no valor legal. Daqui por diante, e excepção feita destes dias no México, vou apertar o cinto, para ver se chego a Lisboa ainda com algum dinheiro.
Quanto a horários, só amanhã, talvez, irei tratar disso, mas certamente vou sair do México uns 2 ou 3 dias mais tarde do que contava, para poder compensar o atraso da chegada. Assim, é natural que chegue a Lisboa também uns 2 ou 3 dias depois; feito o programa, logo mandarei dizer. Com todos estes atrasos, a Luísa com certeza se tem visto atrapalhada para colocar os alfinetes no mapa (15).
Do Congresso no México, que acaba amanhã, já quase nada irei aproveitar, a não ser a documentação e uma excursão de 2 ou 3 dias a partir de domingo, mas no fundo talvez tenha sido preferível passar estes dias a mais em Cuba, pois foi exactamente nestes dias depois do Congresso que pude estabelecer mais contactos, e que foram principalmente: com um casal como nós, em mentalidade e preocupações e idade (Eduardo Casas, professor universitário, irmão do que foi presidente da Acção Católica nos últimos anos e que foi para os EU); com a irmã da Tia França (16) e o marido, que vivem a tragédia de ver acabar o mundo que era o deles; com uma família da pequena burguesia (pais da 1ª Irmãzinha de Jesus cubana, e que está em Roma); e finalmente com o Encarregado de Negócios de Portugal, rapaz novo, não-partidário e muito objectivo nos seus juízos, é claro muito bem informado. Faltou-me falar com um padre, mas no fundo talvez a falta não seja grave: as diversas tentativas que fiz goraram-se, ou por desencontros ou por retraimento da parte de um deles. Além disso, é claro, tive conversas com muita gente, desde criados de café e motoristas até pessoas do Corpo Diplomático (devo dizer-te que andei por várias embaixadas, não tendo havido problema com o vestuário, pois nesse aspecto Cuba é muito livre nos tempos que correm). E é curioso que, neste meio, encontrei pessoas com certa simpatia pela Revolução; além disso, vim encontrar conhecimentos inesperados, como por exemplo a filha do embaixador do México, que esteve anos em Portugal e que era muito amiga do Francisco Lino Neto (continua solteirona aqui) e uma filha do director da Pide (!) , rapariga simpatiquíssima, casada com um diplomata suíço que esteve aí em Lisboa (17). É claro que de tudo isto tenho tomado as minhas notas, para poder responder melhor às muitas perguntas que me vão fazer. Entretanto, digo-te que levo para Lisboa algumas surpresas de sensação (18).

Espero que não te tenhas afligido com o ciclone, que parece que na realidade foi devastador; só apanhou a parte oriental da ilha e Havana fica na parte ocidental; estive ainda para mandar um telegrama, mas achei que aquilo que temos combinado a esse respeito o podia perfeitamente dispensar; e supus que com a leitura atenta das notícias aí e a consulta do mapa se podia concluir que a zona da capital não fora atingida.
Esta gente aqui está muito preocupada, pois prevêem que as privações que actualmente sofrem de alimentação se irão acentuar ainda. Efectivamente, a falta de artigos de toda a ordem é grande e a população de Havana estava habituada a viver à grande.
Para te falar agora um pouco do Congresso e do seu ambiente, digo-te que foi dominado pela situação da América Latina, que todos concordam está à beira de uma revolução generalizada, motivada pela incompetência dos políticos democráticos e pela estrutura económica super-capitalista. No que toca à habitação, foi-me dado verificar que os problemas que os arquitectos põem são os mesmos que nós pomos aí, mas que de uma forma geral, estamos mais atrasados em tudo: na legislação, nas realizações e nos quadros técnicos; em quase todos estes países já há algumas experiências que nós em Portugal nem sequer esboçámos.
Estamos a chegar e interrompo a carta. Acabarei depois de ter lido a correspondência que está à minha espera. Ou talvez não. Vou já deitar esta mesmo no aeroporto, à chegada, pois pode ser que isso abrevie a chegada aí de 1 ou 2 dias. (…)
14 Out. 1963 | Cidade do México
Estou no meu 3º dia de México (nesta 2ª passagem) e escrevo-te agora umas rápidas linhas para te dar conta da alteração de datas. Espero chegar a Lisboa no dia 22 de manhã, pelas 8 e meia, num voo da Pan American desde Porto Rico; é portanto um atraso de dias e chegarei num belo dia , perfazendo exactamente 1 mês de viagem. Confesso que me apetecia por um lado ir mais depressa, mas por outro é uma estupidez não aproveitar ao máximo esta viagem talvez única. Assim, como estes dias de México até agora têm sido para o Congresso (incluindo passeios e visitas – aqui são amabilíssimos e recebem-nos em suas casas), preciso de mais algum tempo para ver e obter documentação sobre habitação. Partirei, pois, só no dia 17, para chegar a Bogotá à noite, depois de uma escala em Panamá. (…) A 19 vou de Bogotá para Caracas e depois, daqui para Porto Rico, de onde partirei na 2ª feira, dia 21, à noite.
A papelada que já tenho é imensa e vou tratar de a expedir toda daqui pelo correio. Estes dias serão para tarefas desse género, para ver algumas coisas importantes que me falta ver, para obter coisas sobre habitação e para contactos relacionados com as Informations [Catholiques Internacionales], os Cursos [de Cristandade] e o MRAR. No sábado à tarde já fui a uma missa dos Cursos, ontem houve uma clausura a que não pude assistir e hoje vou à ultreya e devo falar aí; quero ver se uso este dia como preparação para isso, para que não seja eu só a falar, mas o Senhor, pois aquilo que vou dizer não será muito fácil, pois creio que tenho obrigação de dar um pequeno testemunho sobre Cuba, que para esta gente burguesa e católica é o inferno.
Quanto ao MRAR, quero ver se falo com um beneditino-arquitecto que fez algumas obras excelentes e com outro arquitecto que trabalhou muito em igrejas, e que é cursista, pois estes e outros mais andam muito dispersos e aqui há muito para fazer, uma quantidade enorme de igrejas novas, mas com muita falta de sentido litúrgico.
Deixo para o fim uma referência às notícias de Lisboa. Foi um prazer enorme, como podes calcular, quando por fim me entregaram aquele volumoso maço de correspondência tão recheado de boas notícias (…).
17 Out. 1963 | Bogotá
Estou voando do Panamá a Bogotá, onde devemos chegar pela meia-noite, e como combinámos e tenho feito, porei esta carta no correio à chegada ao aeroporto. Saí à 1 hora de México, depois de uma manhã atarefadíssima desde as 7 horas, por causa da expedição da papelada pelo correio; tive que fazer os pacotes por duas vezes, pois deram-me uma informação errada sobre o peso máximo de cada pacote. Foram nada menos de 6 pacotes de 3 kg que, apesar de irem por barco, e só chegarem talvez daqui a mês e meio (!) saíram bem caros. Isto da papelada é um problema. Mesmo assim, e pelo facto de a balança do hotel não estar regulada (pois tinha feito pesar as malas previamente), ainda tinha 8 kg de excesso de peso no aeroporto, o que me custaria muito dinheiro. À pressa, ainda fiz mais 2 pacotes e reduzi o excesso para 4 kg, o que me custou até Bogotá 250$00. Aqui, terei pois que expedir mais esses 4 kg pelo correio, para não ter que pagar excesso até Lisboa, o que seria caríssimo. Pena é que chegue a Lisboa praticamente sem documentação, pois isso reduzirá muito o interesse imediato dos meus relatos. Por outro lado, penso que pelo correio há mais probabilidades de as coisas chegarem, pois, pelo que vi até agora, a ida a Cuba (marcada no passaporte em letras enormes, para não passar despercebida), ocasiona uma revista completa a toda a papelada; neste aspecto, tenho tido sorte; assim: nos primeiros aviões que chegaram ao México depois do Congresso de Cuba, os passageiros foram revistados, sendo apreendida toda a documentação que cheirasse a Castrismo (jornais, folhetos, etc.), inclusivamente as conclusões do Congresso! Isto deu azo a reclamações de algumas embaixadas e a partir disso só os arquitectos mexicanos foram revistados; como eu vim num dos últimos aviões, nem sequer me abriram as malas. Mas há pouco, ao desembarcar em Panamá, dos 3 volumes de mão que trago, dois foram completamente revistados e examinadas todas as publicações que continham; como entre estas se encontrava o Missal, e o resto eram coisas estritamente de arquitectura ou coisas mexicanas, resolveram não abrir o 3º volume – e neste encontravam-se precisamente quase só coisas cubanas, inclusivamente jornais e folhetos com discursos de Fidel, etc.!!! Foi um aviso, e agora na entrada em Bogotá tudo isso irá nas algibeiras. A vigilância anti-cubana nestes países é tremenda, e isso explica-se, pois Castro está a alimentar campanhas revolucionarias muito acesas em toda a América Latina. Vamos a ver, depois de tudo isto, o que chegará aí, e quando! É claro que alguns documentos levo em duplicado, e estão em pacotes ou malas diferentes.
Estive, portanto no México, desta 2ª vez, ainda uns 6 dias, e sem conseguir fazer muita coisa que gostaria e ver muitas coisas das mais importantes que há para ver. O tempo foi quase todo passado em contactos e em transportes; e digo em transportes porque as distâncias na cidade são enormes, e o tráfego muito, e as coisas importantes muito espalhadas pela cidade. Passei horas e horas em carros e autocarros (não têm Metro). Os arquitectos mexicanos inexcedíveis de simpatia, recebendo logo nas suas casas. Além disso, portaram-se muito bem quanto às massas, pois a duração do convite, que em princípio se limitaria aos dias das Jornadas, foi estendida a toda a estadia, pelo que não paguei nada no hotel. Isto susteve um tanto as grandes despesas que tenho feito, mas agora tudo será de novo à minha custa; procurarei hotéis baratos e reduzirei ao mínimo as refeições (fisiologicamente, estou bem preparado para isso…).
Os cursistas, muito fraternais e entusiastas – estive também em casa de um casal dirigente – mas os problemas que têm na cidade do México são os mesmos que temos em Lisboa, e talvez em maior grau; falámos neles, e verifiquei que, como aí, só alguns têm consciência deles; aqui têm Cursos desde há 6 anos, já fizeram 80, e continuam a ter uma só ultreya numa paróquia excêntrica. Estive lá na 2ªfeira, e a concorrência não era maior do que nas nossas do Santo Condestável, com a agravante que o tónus social era ainda mais elevado. O mesmo se passa aqui com os grupos de casais, muito desenvolvidos no Movimiento Familiar Cristiano. Enfim, depois terei muito que falar sobre tudo isto. Ontem jantei novamente com as Hermanitas (…).
18 Out. 1963 | Bogotá
(… ) E agora, voltemos à viagem.
O trajecto de ontem desde o México foi soberbo, pois estava boa visibilidade e voámos sobre o cordão que liga as duas Américas por entre montanhas de antigos vulcões. A paisagem fez-me lembrar muito os Açores, especialmente S. Miguel, com muitos tons de verde e lagoas nas crateras. Uma paragem em Guatemala de 2 horas e outra no Panamá de 3 horas, embora sem sair do aeroporto, fez-me conhecer um pouco o ambiente dessas pobres repúblicas dominadas pelos americanos. A pequena estadia aqui na Colômbia permitiu-me conhecer um novo ambiente, muito diferente dos do México e de Cuba. Trata-se do país onde o catolicismo está mais enraizado e tem mais força; as igrejas cheias de homens (além das mulheres, claro) e de práticas beatíficas; livrarias católicas por todos os lados; nada de toilettes exuberantes e retratos dos papas e de bispos por todos os lados. Por estas e por outras este país ainda não teve a sua revolução e o regime económico-social conserva todos os traços da escravatura. Não há ainda guerrilhas, como na Venezuela, mas isto por estes países não vai sem tiros: ainda há pouco passei por um discreto monumento que, numa das ruas principais, assinala o local onde há 3 ou 4 anos foi assassinado um dirigente operário por ordem das forças conservadoras que dominam o país; e na Guatemala, onde toquei ontem, algumas dezenas de sindicalistas católicos estão na cadeia, e dos seus chefes, um foi morto no ano passado e outro esteve às portas da morte há um mês. Por tudo se sente que os actuais regimes conservadores não se poderão manter; resta saber se este continente vai para o comunismo ou se, pelo menos em alguns países, as forças revolucionárias de inspiração católica, cujo dinamismo e prestígio tenho verificado, conseguem uma mudança radical pela via pacífica e sem atropelo das grandes liberdades. Vou muito impressionado e algo documentado sobre tudo isto. E neste aspecto de fazer despertar e demonstrar que certas coisas justas são possíveis, o Fidel tem dado uma grande ajuda. (…)
Notas
(1) Foram três discos, de artistas desconhecidos para o Nuno; um deles foi depois muito apreciado e celebrado: era da Joan Baez.
(2) VII Congresso da União Internacional dos Arquitectos, em 1963 realizado em Cuba e no México.
(3) Revista francesa Informations Catholiques Internacionales (1955-1983), bimensal até 1976, muito influente nos meios católicos informados, e que o Nuno assinava, em conjunto com o periódico Croissance des Jeunes Nations, lançado em 1961.
(4) A Livraria Sampedro, em Lisboa, também enquanto editora, foi uma presença ativa no panorama católico português nos anos 1950 e 1960, fundada e dirigida por Manuel Bidarra de Almeida (1930-2010), com Manuel d’Oliveira Campos. Neste ano de 1963 lançou a coleção de livros para a juventude intitulada “Nosso Mundo”, uma iniciativa de Maria Natália Duarte Silva, Sofia de Mello Breyner Andresen e Madalena Ferin.
(5) A Fraternidade das Irmãzinhas de Jesus de Charles de Foucauld foi fundada pela irmã Madalena de Jesus em 1939, na Argélia, inspirada na vida de Charles de Foucauld, canonizado em 2022 pelo Papa Francisco. A congregação está presente em Portugal desde 1952, desde logo no bairro de barracas do Casal Ventoso, em Lisboa, e depois em Fátima, onde ainda mantém uma comunidade.
(6) Provável referência às reuniões mensais da equipa de casais de Nossa Senhora na qual o Nuno e a Natália participaram entre 1959 e 1967.
(7) Cursilhos ou Cursos de Cristandade, movimento católico com origem em Espanha (1949) que chegou a Portugal em 1960, e pelos quais o Nuno e a Natália passaram em 1962-1963.
(8) Reuniões regulares de cursistas após a frequência do “cursilho” de três dias.
(9) Luís Teotónio Pereira (1895-1990)
(10) António Jorge Martins, grande amigo (1931-2014).
(11) Irmã de Júlia Teixeira França, casada com Alberto Teotónio Pereira, tio do Nuno.
(12) Henry Jacques Le Même, arquitecto francês (1897-1997).
(13) Valentina Tereshkova, primeira mulher a ir ao espaço, em junho de 1963.
(14) Arquiteto Carlos Ramos (1897-1969), chefe da delegação portuguesa ao Congresso.
(15) Mapa da viagem que, como era tradição em casa quando os pais viajavam, se compunha no placard colocado na sala, para acompanhar e compreender a digressão.
(16) Júlia Teixeira França, casada com Alberto Teotónio Pereira, tio do Nuno.
(17) Annie Silva Pais (1935-1990)
(18) A mais importante das quais foi a gravação de um longo discurso de Fidel Castro no encerramento do Congresso, a 3 de outubro de 1963, para cujas audições em casa NTP convidou, em sucessivas rondas, dezenas de colegas e amigos.
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