Tiago Malato
A Casa de Marvão
Na minha família, existem dois lugares perfeitos que perduram no mais sagrado de nós. O mais elevado deles é Marvão. Mais especificamente, a Casa dos Teotónio Pereira. Marvão é, no imaginário Fragoso Malato, tudo o que acontece à sua volta. Chamemos-lhe aqui “A Casa de Marvão”.
De certa forma, nós “pertencemos aos lugares da nossa infância”. Parte das minhas mais fortes primeiras memórias e das dos meus irmãos faz-se na vila fortificada no topo da Serra do Sapoio, fria no inverno, calada e misteriosa, de onde se diz “ver os pássaros pelas costas”. Ali, na Casa de Marvão, durante duas semanas em setembro, eu, os meus nove irmãos e os meus pais encontrámos um refúgio, propiciado pelo Nuno e pela Natália, um centro de gravidade emocional onde todas as aventuras e amizades fraternas se reforçavam e se tornavam aprendizagens de vida. A casa era um espaço sentido grande em todos nós. Evoco aqui a origem medieval respeitada, as madeiras e os soalhos desgastados, o arquibanco, a mesa e os armários sem idade, os barros, o sentido da cal e da humidade. A sobreloja. Evoco as mantas pesadas com que nos agasalhávamos à noite. Evoco a lareira grande a crepitar, os painéis de azulejo, a arte, a cozinha simples, a pequena entrada traseira, algo secreta, que se revelava para a grande Casa de Marvão. Evoco a comunhão. O que escrevo de rajo, espreita do meu lugar de sexto filho de dez. Sei que o meu irmão Pedro, mais velho, era acolhido com frequência pela Natália e pelo Nuno. Sei que o meu irmão Nuno, também arquiteto, trabalhou mais tarde com o Nuno. Suas vivências serão diversas, mas compartilham todas uma raiz comum. A amizade com o Nuno permanece inteira, a consideração pela Natália imutável, assim como o respeito profundo pela ligação entre os nossos pais e os valores entre eles reforçados. Mesmo quando mais tarde o meu pai se perdia no labirinto do Alzheimer, essa amizade nunca vacilou. Foram sempre eles, rumos na nossa educação, bússolas que nos orientaram sem desvio.

Sinto que herdei de alguma forma um vínculo que atravessa o tempo, uma amizade que se inscreve na memória, e que me liga ao Miguel, à Luísa e à Helena, perpetuando-se na Alice e no Tiago. Amizade ideada que nos mantém os sentidos unidos, inquebrantável, presente. Como se fosse sempre fresca e de ontem a amizade sempre descoberta cúmplice.
A Casa de Marvão transcende o espaço físico. É fluida, um lugar de estar, um caleidoscópio multiforme, um ponto de liberdade, de encontro, de elevação e de passagem, um abrigo de convicções, resistências e esperanças. Espreitando pelo avesso, revela os valores que nela baixam e se consolidam.
É na Casa de Marvão que o Tiago nasce e cresce, firmando-se como homem de valores, guiado pelo caráter inabalável do pai Miguel e pela presença terna e forte da mãe Fernanda. É ali que Miguel, ao decidir sair de Lisboa, encontra acolhimento e um novo território de vida. A Casa de Marvão, sempre um lugar de convergência, de quem busca a liberdade de pensar e agir. Um refúgio, uma promessa, um bastião de valores maiores. É, também, uma casa de resistência. Pessoal e comunal. Apoia os que precisam de atravessar a ditadura a salto, os que procuram um lugar onde possam edificar a liberdade. É a minha casa de liberdade enquanto criança, onde ser e estar profundamente em família se torna a maior das dádivas. As nossas pequenas mãos ensaiam a cestaria de vime, na padaria acompanha-se o moldar dos pães e o forno de lenha, e nos dedos pacientes da minha mãe e dos que com ela aprendem, dança a lã dos tricots ou as contas de grandes rosários de bugalhos. Os pés levam-nos pelos Canchos da Misericórdia, pelas caminhadas até Castelo de Vide, e pelo simples prazer de descobrir o mundo que se adivinha.
“De Marvão vê-se a terra toda”. Escreveu Saramago. Para nós, Marvão foi, naqueles dias suspensos, a terra toda. As muralhas imponentes, guiavam as nossas aventuras. Para além delas, o infinito, desejo profundo e vasto, sem margens.
Apesar da minha família Malato ter as suas raízes em Castelo de Vide, é a Casa de Marvão que nos chama para esses momentos de comunhão e felicidade. É Marvão que nos une e que, pessoalmente, muitos anos depois, faz agora 30 anos, quando eu e Francisca decidimos sair de Lisboa e procurar um novo lugar onde possamos ser úteis e felizes, ressurge no meu mapa mental de afetos. E neste passo, foi o Miguel meu amigo de sempre e primeiro no Alto Alentejo, o nosso apoio e refúgio. Por razões práticas de centralidade urbana, acabámos por escolher Castelo de Vide. Mas Marvão nunca deixa de me espreitar do alto da minha infância.
Hoje, quando regresso, sinto sempre o mesmo respeito avassalador. Num tempo cada vez mais rápido, difuso, incerto e material, evocar a Casa de Marvão é reafirmar a sua dimensão simbólica. É reconhecer que ali, no seu silêncio carregado de ecos, repousam os fundamentos invisíveis de quem sou feito também de tantos que prezo e em mim vivem.
Janeiro de 2025