Assuntos pessoais

MARVÃO | Memórias de uma casa 2

Maria Alice e Júlio Pereira

A Casa de Marvão e a descida do Guadiana

A Casa de Marvão foi o ponto de encontro de um grupo de amigos reunidos, em 1 de setembro de 1973, pelo Nuno e Mário Brochado Coelho, a exemplo do que, no ano anterior, haviam feito com a descida do rio Douro, desde Barca d’Alva até à sua foz, no Porto; nesse ano, em duas canoas, foram acompanhados do Miguel Teotónio e Jochen Bustorff, cabendo-nos a nós, Júlio, Maria Alice e irmã Filomena Maria, assegurarmos o acompanhamento por terra; na altura, a concentração havia sido feita, na véspera da partida, em casa do arquiteto Alfredo Matos Ferreira.

O grupo reunido em Marvão, agora para a descida do rio Guadiana, tinha como marinheiros o Nuno, o Mário Brochado, a Helena Teotónio e o Jochen Bustorff; como acompanhantes por terra, a Isabel Mota e filha Cláudia, a Graça Mota e amiga Isabel Maria, a Manuela Fazenda e nós, Júlio, Maria Alice, sua irmã Filomena, prima Manuela Vidal e amiga Cristina. Em duas ou três das etapas iniciais, participou, também o Alfredo Matos ferreira, supomos que com a mulher e filha.

Como já referido pela Helena, num seu apontamento na secção Biografia do sítio do Nuno, as etapas diárias, previamente definidas com os meios mais avançados de que à época se dispunha, asseguravam o encontro do grupo (fluvial e de terra) em local que permitisse o acampamento na margem do rio, normalmente a meio do dia, de modo a um saudável convívio e disfrute do rio, aproveitando sempre que possível o contacto com as populações locais.

Recordamos, em especial, um encontro, em café/taberna de Baleizão, ao fim da tarde e onde nos foi proporcionada uma sopa alentejana, assistindo à sua preparação a rigor, seguido de convívio com familiares de Catarina Eufémia e que, para o efeito, haviam trazido, com preocupações de discrição e embrulhado em papel de jornal, um quadro com o seu retrato; a partilha realizada com as canções populares de circunstância criou um ambiente muito intenso e que, provavelmente, viria a originar interpelações da GNR junto dos residentes …

Lembramos um encontro com o poeta popular da Vidigueira, Manuel João Mansos e que proporcionou, no ano seguinte, a edição pela Afrontamento do seu livro “Voz Insurrecta” (1).

E não esquecemos a hospitalidade de uma família jovem de camponeses, em Pias, que, dada a inexistência de local onde pudéssemos jantar, não hesitou, perante grupo assim numeroso, de em sua casa nos receber proporcionando-nos um saboroso arroz de coelho, tudo preparado no momento.

Passamos por Reguengos, Monsaraz, Mourão, Moura, Pedrógão, Vidigueira e Baleizão, Monte das Pias, Mértola, Pomarão, Alcoutim (onde, acampados no castelo, vimos uma família disponibilizar-nos a sua casa para a higiene matinal), Almada do Ouro (último jantar, simples e frugal, em taberna local) e terminando em Vila Real de Santo António/Monte Gordo, com o almoço de encerramento.

Já no decurso da viagem de regresso, Alentejo acima, começamos a ouvir as tristes notícias do golpe no Chile.

Para o ano seguinte, ficara já marcada nova descida, no rio Tejo, objectivo não concretizado; outras tarefas e vivências urgentes e inadiáveis o 25 de Abril nos colocou!

Uma pergunta nos fica, agora ao relembrarmos estes momentos: o que saberia o Nuno do encontro de Alcáçovas do Movimento dos Capitães que sabemos agora ter-se realizado no dia 9 de setembro de 1973 quando, no dia 7, estando o grupo acampado no Pulo do Lobo se apartou do mesmo e, quando regressou alegadamente de Beja, nos mimoseou com uns pastéis?

Janeiro de 2025

(1) Para o qual o Nuno escreveu o prefácio, no dia 21 de dezembro de 1973, quando estava preso na cadeia do Forte de Caxias.

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