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MARVÃO | Memórias de uma casa 5

Tiago Teotónio Pereira

Marvão como Abrigo

Francisco Moura, 1988

Uma escarpa rochosa pode, muitas vezes, servir de casa e de abrigo. É isso que o número 7 da Rua de Santiago, antiga Rua 28 de Janeiro, um nome que a República tentou dar, mas que nunca pegou, tem vindo a significar para tantas gerações.

Uma casa secular, de origem popular, construída com uma sabedoria prática e irregular, erguida sobre a muralha. Um lugar onde o tempo se dobra sobre si mesmo e onde o capacete* parece trazer memórias antigas, misturadas com o cheiro da pedra e da madeira envelhecida. Foi há 60 anos que o Nuno e a Maria Natália se encantaram com esta casa, tão discreta quanto tosca.

Marvão, para eles, foi mais do que um refúgio. Foi um espaço de respiração. Um lugar onde o silêncio se enche de sons: o som do sino da Igreja de Santiago, ali ao lado, do vento altaneiro e das conversas em volta da mesa no pequeno quintal. Um lugar onde o mundo parecia caber dentro de umas paredes tortas, onde o futuro, mesmo nos tempos mais duros, ainda podia ser sonhado com esperança.

A casa foi, ao longo dos anos, muitas coisas: segunda habitação, abrigo temporário, casa de férias e de encontros. Foi também um lugar de fuga, da cidade, da vigilância e do peso dos dias carregados. Um espaço onde se ensaiavam formas de vida diferentes, mais livres, mais solidárias, mais recatadas. Um pequeno espaço de convivência e de esperança, quase um modelo precoce de habitação colaborativa.

A Luísa, o Miguel e a Helena guardam um conjunto de memórias muito boas. Memórias de noites frias aquecidas pela lareira, de verões longos passados a brincar no terreiro, de amigos que chegavam e partiam, de visitas que se prolongavam. Os livros falam da casa de Marvão como um refúgio para muitos, para quem procurava desertar, conspirar ou apenas imaginar um país diferente.

Mas mais do que um sítio para fugir, a casa de Marvão começou, com o tempo, a servir de abrigo. Tornou-se um espaço de acolhimento, de vida e de comunidade. Também se fizeram celebrações: aniversários, reencontros, vitórias pequenas e silenciosas. Porém, foi sobretudo na humanidade, nas imperfeições das paredes (que se assemelham às imperfeições humanas), nas madeiras gastas e nas pedras desiguais, que se criaram memórias, afetos e raízes.

Foi casa, para o Miguel, para a Fernanda e para mim – foi aqui que nasci e cresci. Primeira habitação. Espaço de conforto e de continuidade. O que antes parecia apenas um refúgio temporário transformou-se, ao longo dos anos, num lugar de abrigo para muitos, um espaço onde o espírito do Nuno e da Maria Natália permanece, discreto, mas vivo, feito de gestos simples e de presenças silenciosas.

Marvão continua a ser esse abrigo. Um lugar onde a memória não pesa, mas ampara.

Que Marvão continue a ser, por muito tempo, esse espaço de abrigo, para os que lá passaram, para os que lá chegam e para os que ainda hão de encontrar, naquelas paredes antigas, o eco de uma casa que continua a acolher.

* nome que se dá ao nevoeiro em Marvão

Novembro de 2025

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