Atividade política

MARVÃO | Memórias de uma casa 4

Luísa Teotónio Pereira

A rusga da PIDE em 1971

Lembro-me bastante bem. Estávamos a passar uns dias de férias em Marvão, em setembro, como era hábito. Era a primeira vez que o fazíamos em família depois da morte da Mãe, em abril. Talvez por isso foi uma altura muito movimentada, com amigos que chegavam e partiam, para acompanhar e juntar a sua força. E certamente para dar continuidade aos trabalhos contra o regime e a guerra colonial que estavam em curso e nos quais o Pai estava envolvido.

Recordo-me, mas não de tudo. Em parte esqueci, em parte não sabia. Procurei mais informação e os Arquivos complementaram: o da PIDE/DGS que está na Torre do Tombo, o da Fundação Mário Soares e Maria Barroso e a Biblioteca da Brotéria.

PIDE/DGS, SC, CI (2), proc. 3823, NT 7295, f. 60-61. Arquivo Nacional da Torre do Tombo (ANTT)

Nesse dia 21 de setembro, uma 3ª feira, fomos à estação ferroviária da Beirã buscar a Maria Eugénia Varela Gomes, que chegava de Lisboa. Ela era uma amiga próxima, co-fundadora muito ativa da CNSPP – Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos (1969-1974). Segundo escreveu o agente da então Direcção-Geral de Segurança (DGS) que produziu o relatório para enviar aos seus superiores, “na citada Estação [ela] entregou um envelope a um individuo de nome Jean Claude Delorme, francês, estudante (…) que entrou no País pela fronteira de Elvas-Caia, em 21-8-1971, que seguiu no mesmo [comboio] com destino a Espanha. Este indivíduo foi transportado até à Estação da Beirã na viatura de matrícula EC-45-23, marca R-4L, pelo Arquitecto já referido, em casa do qual esteve hospedado”.

Pouco depois de chegados à casa de Marvão, os agentes bateram à porta: “passados 30 minutos dirigi-me à dita morada”, afirma o Chefe de Brigada que assina o relatório, depois de mencionar que “Chegado à Beirã, no dia 20 do corrente, tomei as providências necessárias a fim de realizar a dita busca, nas melhores condições”. E acrescenta: “Ali, e depois de tomadas as devidas precauções, e consequentemente, feitas as habituais démarches dei início à busca referida.”

Arquivo NTP

Uma das precauções foi cercar a casa e postar um agente em cada uma das duas portas que dão para o exterior: na frente, para a “Rua Vinte e Oito de Janeiro”, como é designada no relatório (hoje Rua de Santiago), e nas traseiras, que dão para as muralhas da vila. A primeira démarche foi identificar todas as pessoas presentes. Éramos oito: o Nuno, os seus três filhos, Luísa, Miguel e Helena, a sogra Maria Guiomar, o futuro genro, Diogo, o sobrinho Nuno e a Maria Eugénia, visita acabada de chegar.

A rusga terá demorado umas duas horas, talvez. O objetivo parecia ser a apreensão de papéis, ou pelo menos foi a única coisa que levaram, é a recordação hoje unânime dos presentes com quem falei. Livros, revistas, documentos vários. Não consegui encontrar o “Auto de Busca e Apreensão”, referido no relatório da polícia política, mas no Arquivo NTP há uma nota.

Enquanto vasculhavam senti uma vertigem: e se apreendessem a correspondência da Mãe que o Pai tinha levado de Lisboa para trabalhar na organização do livro que em 1973 a Afrontamento editaria sob o título Cada pessoa traz em si uma vida: escritos e poemas de Maria Natália Duarte Silva Teotónio Pereira e de alguns amigos sobre a sua vida e a sua morte!? Seria uma perda sem nome. Mas não aconteceu.

Brotéria – Biblioteca

A certa altura dei conta de um diálogo entre o Pai e um dos agentes que folheava um número da revista Informations Catholiques Internationales (nº 380, 15-03-1971), que o Pai assinava. Ele queria levá-la, pois tinha um testemunho do padre angolano Joaquim Pinto de Andrade, que estava a ser julgado pelo Tribunal Plenário de Lisboa. A fotografia dele aparecia só na capa, discreta, mas as três páginas (p. 23-25), intituladas “Voici pourquoi j’ai été jeté six fois en prison: une lettre du père Andrade à son juge” eram eloquentes, mesmo para quem não soubesse francês. Percebi que o Pai não tinha tido tempo de ler o artigo ou que precisava dele para alguma atividade em preparação. A sua preocupação era visível. “Eu acho que o senhor não está a perceber bem. Esse artigo não tem interesse nenhum para os vossos propósitos. Isto é uma revista católica.” O agente hesitou por um momento. “O senhor até se arrisca a ficar mal visto pelo seu chefe quando ele vir que levou esta revista. Fica evidente que não percebe o que é que interessa”. Cheque-mate, a revista ficou em cima da mesa.

Almoçámos tarde, aliviados por não se ter passado nada de grave. Irrompe então, alvoroçada, a D. Joaquina, inquilina da casa antes de ela ser comprada pelo Pai e pela Mãe e que depois passou a cuidar dela nas nossas ausências: “Senhor arquiteto, disse-lhe tantas vezes, devia ter-me pedido para guardar as garrafas lá em casa. Não custava nada e não tinha tido este aborrecimento. Comigo a Guarda não se mete, é seguro. Para a próxima vez…”

Terra fronteiriça é terra de contrabando. Uma das nossas vizinhas era conhecida como “a contrabandista”. A atividade foi importante até ao 25 de Abril. Dela nos servimos várias vezes quando, fingindo ir comprar caramelos e outras guloseimas para as crianças, organizámos excursões e piqueniques inocentes para fazer passar para Espanha moços destinados à incorporação militar e à guerra colonial.

Fundação Mário Soares e Maria Barroso (FMSMB) / Arquivo Felicidade Alves

Abril de 2025

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Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos (CNSPP) (1969-1974)