ORLANDO RIBEIRO, MESTRE TAMBÉM DE ARQUITECTOS
Um excelente dossier sobre Orlando Ribeiro acaba de ser publicado nos dois últimos números do JL. Recheado de testemunhos de discípulos seus, é cheio de interesse e comovente a sua leitura. O grande mestre da nossa Geografia aparece retratado em toda a grandeza do seu saber pioneiro e da sua estatura de Homem. Mas nesses depoimentos faltou o de um arquitecto. É que estes, pelo menos os de algumas gerações, muito lhe devem também.
Não que me arrogue uma representatividade que não tenho para preencher essa lacuna. Mas não posso ficar em silêncio nesta altura. Devemos a Orlando Ribeiro muito da nossa formação como agentes de intervenção no território. E eu devo-lhe pessoalmente muitíssimo pelo que me ensinou no entender e amar a terra portuguesa e o seu povo.
Tive oportunidade de frequentar algumas lições suas no Centro de Estudos Geográficos, ao mesmo tempo que cursava Arquitectura. Assim as duas formações entrelaçaram-se. Vi nessa altura as suas inéditas cartas monográficas de Portugal (relevo, clima, distribuição das culturas e do arvoredo, e tantas mais), que viriam a ser publicadas na “Geografia de España y Portugal”. Tinha saído pouco antes “Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico”, que li com avidez e me deixou marcas profundas: foi certamente o livro que mais me influenciou em toda a minha vida. Stão ali os segredos da interpretação do território em que o arquitecto tem de intervir, construindo.
É que para se fazer arquitectura é fundamental o entendimento do lugar. Seja para inserir harmoniosamente a obra nele, seja para se lhe opôr, propondo um diálogo. E foi desse entendimento do lugar que preocupou os meus colegas de geração, com melhor ou pior sucesso. Uma construção é uma tarefa de enorme responsabilidade, pois vai alterar a paisagem e tem a ver com as gerações que habitam ou irão habitar esse território.
Datam dessa época as minhas constantes e minuciosas peregrinações pela terra portuguesa, lembrando-me de um dos conselhos do Mestre: para um geógrafo é um deleite subir ao cimo de um monte e olhar o mundo em seu redor. Hoje a fotografia aérea já dispensa isto, mas fazê-lo por trilhos de montanha e assente nos pés é bem outra coisa. Seguir o curso de um rio, deparar com aldeias paradas no tempo desde há séculos, avançar por caminhos de terra que não vinham no mapa do Automóvel Clube, foram prazeres que me acompanharam durante décadas, procurando seguir as pisadas de Orlando Ribeiro. Como meter conversa com um pastor ou com um grupo de gente da aldeia, a inquirir das coisas do lugar e da vida.
São dessa época os meus projectos mais ligados à terra, utilizando, a par com o betão armado, materiais locais: o granito, a madeira, o xisto. Foi assim a igreja das Águas em Penamacor e o bairro de Barcelos, este em perpeanho de granito à vista no meio de pinheiros, e que ainda lá estão e cumprem bem a sua função. Como foi assim a pousada de Vilar Formoso, projectada nas planuras de Malpartida, próximo da aldeia que viu nascer Eduardo Lourenço, e que infelizmente não foi construída.
Foi também nessa época que, por iniciativa de Keil do Amaral, o Sindicato dos Arquitectos realizou o inquérito à Habitação Popular, obra pioneira, que vai hoje na sua 3ªa edição. Andei nessa altura pela Extremadura com Francisco Silva Dias e António Pinto de Freitas. E foi dentro da mesma devoção que anos mais tarde, em 1972 e 73 fiz as descidas do Douro e do Guadiana, numa pequena frota de canoas que tinha como capitão Mário Brochado Coelho, em aventura também de certo modo pioneira.
Da vasta bibliografia de Orlando Ribeiro conheço muita coisa, sorvendo como vinho da melhor cepa (outros diriam da água mais pura e cristalina) os seus escritos. São frequentes as suas incursões no campo da arquitectura tradicional. Quando estive preso 5 meses em Caxias, na expectativa de vários anos de que o 25 de Abril me livrou e a muitos outros, pedi à família que me mandassem coisas de Orlando Ribeiro (e também de Leite de Vasconcelos). Dessas leituras recordo especialmente o magnífico trabalho de síntese que é “A expressão da terra portuguesa”, publicada no primeiro volume de Ensaios.
Agora, que se discute a regionalização do País, Orlando Ribeiro, embora felizmente vivo, faz-nos falta com o seu saber enraizado no seu profundo conhecimento da terra portuguesa e da gente que a habita. É por isso que quando oiço defender uma super-região Norte, englobando o Minho e Trás-os-Montes, me sinto arrepiado, pois o grande mestre sempre separou vincadamente as duas regiões, como realidades territoriais e humanas completamente distintas. Oxalá a sua sabedoria venha a prevalecer quando soar a hora de tomar decisões.
PEREIRA, Nuno Teotónio. “Orlando Ribeiro: mestre também de arquitectos”. Público, 14 mar. 1995. p. 14.
Existe original impresso, 2 p.
Republicado em Tempos, Lugares, Pessoas. S.l.: Contemporânea e Jornal Público, 1996, pp. 98-100
UMA PAIXÃO SERENA
Com a morte de Orlando Ribeiro consuma-se a presença física entre nós do maior geógrafo português deste século. O maior porque nenhum outro antes ou depois dele estudou tão profundamente e explicou tão genialmente os enigmas do nosso torrão natal. Neste torrão e enquanto corpo físico, mas também da gente que ao longo do tempo o habitou, o cultivou, e o transformou e assim o foi humanizando.
Mas não só de geógrafos foi Orlando Ribeiro mestre. Foi-o de todos os que com ele aprenderam a entender e por isso a amar a terra portuguesa. E isso porque foi capaz de nos comunicar o seu saber profundo com uma paixão serena que soube fazer contagiante. “Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico” foi a chave-mestra desse entendimento e por isso dessa paixão. Não mais esquecerei o que foi para mim o fascínio dessa leitura.
Infelizmente, Orlando Ribeiro há muito deixara de escrever e por isso nos habituámos já à sua ausência corpória. Mas, o seu espírito e a sua obra permanecem vivos entre nós e só desejo que dêem fruto quando tão necessários são no combate à desumanização que corrompe a nossa paisagem e ameaça até o nosso planeta.
PEREIRA, Nuno Teotónio. “Uma paixão serena”. Público, 18 nov. 1997
ORLANDO DA CUNHA RIBEIRO (1911- 1997). Geógrafo.